terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Histórias de Ano Novo



A velha estava com dor de ouvidos:
- A vida não é algo que se tem. Um corpo que passa.




O vagabundo arrastava suas pestanas:

- A peste: os notáveis pedem pizza.



O menino sabia: voar
- O futuro não está simetricamente distribuído.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A palavra é o destino do humano, assim como o sinal é o destino dos pássaros! Usemos a palavra para que a vida seja maior do que o lucro!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

São Paulo, 03 de janeiro, Pequeno Conto

Lá,
havia cinco moscas e um cocô.

O velho,
acendeu um cigarro e abriu o livro.

Enquanto lia, o homem interrompia vez por outra o destino da fábula para acompanhar os movimentos das moscas a sobrevoar o dejeto.

Uma das moscas ficou todo o tempo deitada sobre o cocô.
Parecia refastelar-se com a vida tão fugidia das moscas.
Ela não pensava,
portanto não sabia que a sua existência de mosca
era tão curta.

O velho voltou a ler, a fumar e a catar piscos de moscas.

De vez em quando
pensava na própria existência
o que o fazia sentir o cheiro do cocô.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

São Paulo, 09 de dezembro, Pequeno conto.


O homem entra na terceira porta à esquerda, em primeira pessoa:
- Estive cansado. Estive com dores na estrutura. Os dentes estiveram a doer. Estive a abrir os olhos na rua escura. Estive a lavar o rosto pela manhã com o rio cansado de pés sujos. Estive muitos anos sem saber que sou todos.

O homem fecha a porta e senta-se na beira da cama da velha, também em primeira pessoa:
- Aos cinqüenta, falo sem parar, ouço sem freios, olho tudo, toco tudo, porque estou no nascimento primitivo, sem refinações europeias.

A velha, ainda deitada, levanta um dedo e diz, em segunda pessoa:
- Tu és quase um rude diante dos que têm mulheres oficiais, casas na praia, bons cargos, repuxes nas peles, distrações.

(Será uma acusação? – pergunta uma voz vinda de fora do texto. Parece não caber naquele corpo que a voz forasteira está a imaginar. – constata o escritor.)

O homem levanta-se e vai até a janela, olha o marceneiro a serrar mogno, em terceira pessoa:
- Pode parecer ressentimento, mas confesso que é sentimento. (Silêncio). Ele sente apenas.

A velha solta os olhos na direção do homem, estão em duas pessoas:
- Não há nada bonito?
- Tudo isto é. Encostei o corpo no mundo e por isso sinto.

A velha vira-se de lado e olha a parede (continuam em duas pessoas):
- Sei.
- Quanto menos eu sei, abraço melhor.

A velha suspira fundo e diz o pressentimento _________________________________.
- Falta pouco para o desmanche da (minha) carne.

O homem corre até a cama e vira a velha em sua direção:
- Este é o ponto: matar este que está nascendo. Este é o ponto. Morrer é desmanchar o que está nascendo, por isso quero escrever este livro. Espere. Você precisa estar nesta cama. Quero que você veja o nascer dos filhos, quero ensinar e ser amado. Quero ser lembrado. Por este que está nascendo com sangue e fúria, não deixe este mundo.

A velha abre o sorriso calmo de toda a vida. Conta uma história:
- Quem sabe os dias sejam apenas para deitar sobre uma pedra e deixá-la flutuar como nos desenhos que você fazia nos azulejos da casa amarela.




O homem dá um beijo na testa da velha, em primeira pessoa, olha o que ela faz, em segunda pessoa, e a deixa... (a morrer de saudade da sua infância, em terceira pessoa). 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Palavra caída

Tirocínio de derrubar palavras.
O João cavou o poço até os olhos
abrirem-se para o Dentro.
Do buraco caíam velhas peles
de raposas vestidas de cordeiro.
-(Não o do Deus) - disseram os parênteses.
As palavras lavavam-se no jorro da água
e João não vinhava dúvidas.
Uma delas, ergueu-se, ainda caída,
apoiando um filho que passava pelos braços do João
e fincou os pés no sentido.
Por ali, andam dizendo (hoje) que este foi
o exercício do João:
- Crescer até o amanhã e não esquecer de riscar o fósforo
quando falar for palha.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Os homens alimentam-se, sobretudo, de vibração.
Nem todo real produz.
Alguns, são tomates enfiados na terra brotando nas dobras do tempo.
Ontem, virei a esquina:
lá estavam dois homens,
um domínio
uma mulher
e o amor.
por lá também passaram todos os entes que tocaram seus quimonos no infinito passado.
eu orei hoje pela manhã,
agradecendo.
E, com vergonha vos digo:
fiz pedidos (...)
o primeiro:
que eu consiga ser alimento e boca.