olhos em luta
entre o abre
e o fecha.
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Palavra caída
Tirocínio de derrubar palavras.
O João cavou o poço até os olhos
abrirem-se para o Dentro.
Do buraco caíam velhas peles
de raposas vestidas de cordeiro.
-(Não o do Deus) - disseram os parênteses.
As palavras lavavam-se no jorro da água
e João não vinhava dúvidas.
Uma delas, ergueu-se, ainda caída,
apoiando um filho que passava pelos braços do João
e fincou os pés no sentido.
Por ali, andam dizendo (hoje) que este foi
o exercício do João:
- Crescer até o amanhã e não esquecer de riscar o fósforo
quando falar for palha.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Lá
Os homens alimentam-se, sobretudo, de vibração.
Nem todo real produz.
Alguns, são tomates enfiados na terra brotando nas dobras do tempo. Ontem, virei a esquina: lá estavam dois homens, um domínio uma mulher e o amor. por lá também passaram todos os entes que tocaram seus quimonos no infinito passado. eu orei hoje pela manhã, agradecendo. E, com vergonha vos digo: fiz pedidos (...) o primeiro: que eu consiga ser alimento e boca.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
escuta
O homem estava a sair de casa para mais um dia de trabalho:
- "Bom trabalho, SSSSSSEEEEEEUUUUUU Júlio". - foi como escutou.
A mulher era negra e estava em pé sobre os ombros de outra negra, de outra negra, de uma negra mais negra que ela, de outra que usava manto, de outra que usava farrapos, de outra nua, de outra vestida como rainha.
Escutei (ou foi o homem que estou a criar? - ato falho!) um som de corrente sendo puxada em ruas feitas com paralelepípedos.
A negra, de ancestralidade enraizada, dizia agora:
- "Seu".
Eu era meu? E ela não era dela? - pensou o homem arrancando uma espinha no canto do nariz.
O "seu" que a língua obriga a dizer é possessivo.
Duzentos anos depois de Iaiá assinar a missiva, o homem não sabia como continuar o dia.
Será que o homem pertencia mesmo a si mesmo?
(pensou nos grilos dentro de gavetas que deixam amarelar papéis até que digam "sois grileiro")
Mão-ciparam a terra.
- Há uma mão sobre a negra. - pensei ou pensou.
O homem foi até o armário de remédios e não encontrou nenhuma droga que amenizasse a sujeição forçada a seus semelhantes.
Não há mais nada a fazer
Senão:
e-mão-cipar a língua de tamanha violência.
- "Bom trabalho, SSSSSSEEEEEEUUUUUU Júlio". - foi como escutou.
A mulher era negra e estava em pé sobre os ombros de outra negra, de outra negra, de uma negra mais negra que ela, de outra que usava manto, de outra que usava farrapos, de outra nua, de outra vestida como rainha.
Escutei (ou foi o homem que estou a criar? - ato falho!) um som de corrente sendo puxada em ruas feitas com paralelepípedos.
A negra, de ancestralidade enraizada, dizia agora:
- "Seu".
Eu era meu? E ela não era dela? - pensou o homem arrancando uma espinha no canto do nariz.
O "seu" que a língua obriga a dizer é possessivo.
Duzentos anos depois de Iaiá assinar a missiva, o homem não sabia como continuar o dia.
Será que o homem pertencia mesmo a si mesmo?
(pensou nos grilos dentro de gavetas que deixam amarelar papéis até que digam "sois grileiro")
Mão-ciparam a terra.
- Há uma mão sobre a negra. - pensei ou pensou.
O homem foi até o armário de remédios e não encontrou nenhuma droga que amenizasse a sujeição forçada a seus semelhantes.
Não há mais nada a fazer
Senão:
e-mão-cipar a língua de tamanha violência.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
pontos de fuga
I
a alma não pensa sem imagem
II
trabalhar cansa
III
quando a inteligência não está à vontade, toda a alma está doente
IV
trabalhar com os problemas técnicos é procurar meios para um fim já suposto
V
a vontade delibera uma orientação: sempre
VI
liberdade (se existe) é deixar para os vermes a propaganda e a necessidade obsessiva de influenciar o mundo, as coisas, a natureza e as pessoas com a nossa opinião.
caminhos deste texto:
A. alma como ânima ou movimento das emoções, alguma coisa que é animada.
B. Simone Weil deu-me a mão hoje pela manhã, caminhamos pelo parque perto de casa. Ela estava com o corpo sujo de terra.
a alma não pensa sem imagem
II
trabalhar cansa
III
quando a inteligência não está à vontade, toda a alma está doente
IV
trabalhar com os problemas técnicos é procurar meios para um fim já suposto
V
a vontade delibera uma orientação: sempre
VI
liberdade (se existe) é deixar para os vermes a propaganda e a necessidade obsessiva de influenciar o mundo, as coisas, a natureza e as pessoas com a nossa opinião.
caminhos deste texto:
A. alma como ânima ou movimento das emoções, alguma coisa que é animada.
B. Simone Weil deu-me a mão hoje pela manhã, caminhamos pelo parque perto de casa. Ela estava com o corpo sujo de terra.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Tradução 1
O mistério não tem dois extremos:
tem um.
O único extremo do mistério está no centro
do nosso próprio coração.
Porém,
não deixaremos nunca de buscar o outro extremo,
o extremo que não existe.
(minha própria língua traindo a poesia vertical de Roberto Juarroz)
tem um.
O único extremo do mistério está no centro
do nosso próprio coração.
Porém,
não deixaremos nunca de buscar o outro extremo,
o extremo que não existe.
(minha própria língua traindo a poesia vertical de Roberto Juarroz)
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Roubos
Hoje pela manhã, li o jornal da Folha de minha cidade. (Nome de Apóstolo que virou Santo - veja a perturbação).
Na coluna dos homens sábios, que falavam do cotidiano, havia um que dizia sua pendência para a direita política. Lá encontrei tantas certezas que no mesmo instante, roubei:
- O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as pessoas idiotas estão cheias de certezas.
Depois pensei numa mulher que foi um dia criança:
- Eu só comia beterraba porque meu pai dizia que era batom.
Empunhei uma arma e saí pelos livros roubando:
- Não mudaremos a vida, se não mudarmos de vida.
Fechei o jornal e chorei palavras enquanto tomava banho para iniciar mais um dia:
- Ler é escrever no caminhar da escrita.
Depois do banho, a comunidade do guardador de rebanhos, trazia a lista dos roubados:
Henry Charles Bukowski Jr.
José Saramago
Jaime Rocha
eram todos de esquerda.
Na coluna dos homens sábios, que falavam do cotidiano, havia um que dizia sua pendência para a direita política. Lá encontrei tantas certezas que no mesmo instante, roubei:
- O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as pessoas idiotas estão cheias de certezas.
Depois pensei numa mulher que foi um dia criança:
- Eu só comia beterraba porque meu pai dizia que era batom.
Empunhei uma arma e saí pelos livros roubando:
- Não mudaremos a vida, se não mudarmos de vida.
Fechei o jornal e chorei palavras enquanto tomava banho para iniciar mais um dia:
- Ler é escrever no caminhar da escrita.
Depois do banho, a comunidade do guardador de rebanhos, trazia a lista dos roubados:
Henry Charles Bukowski Jr.
José Saramago
Jaime Rocha
eram todos de esquerda.
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