terça-feira, 10 de abril de 2012

O escritor escutou de um Millôr Fernandes de 1989:
- Uma vez me perguntaram por que homens e mulheres se expressam tanto com a palavra e tão pouco com o desenho, com a música. Foi o que respondi: são cinco bilhões falando do momento que acordam até a hora de dormir. Dá para entender?

Esta frase estava na lembrança do escritor, escorreu até os dedos, foi o que pensou:
- Será que quando a gente guarda uma lembrança, mesmo esta à época do muro que ruía, será que estamos escrevendo algum texto dentro de nós?

Daquela lembrança-pergunta, de singela e ingênua, cavou um poço:
- Nós pensamos ou somos pensados?

Ele não parava, não conseguia descansar os dedos.
Então, preparou uma cumbuca com água quente e pôs os dedos a dançar naquela poça:
- O que fiz com a frase de Millôr foi roubo, cópia, plágio, citação ou autoria.

Sem saber. Digitou o que pensava e ainda pensou:
- Seria mais feliz se ao invés de "digitou" tivesse escrito "desenhou", mas isto não seria verosímil.

sábado, 7 de abril de 2012

SMS - 15 anos ou poemas da existência de um jovem

1 ano

Que o poema rompa diante de ti entre vistas que se veem como o ar para o balão.

2 anos

A indiferença causa a maior das dores.

3 anos

Saudade que aperta e dilata o existir.

4 anos

Uma noite. Mais um deus tentou encostar a cabeça no silêncio. Que a gente tenha força de estar presente na espera de agora.

5 anos

Sentindo seu cheiro abrindo costelas. Repente de susto. Ar quente no céu da boca.

6 anos

O dia nasceu com uma pergunta: o que pode ser tão partilhado numa vida a dois como foi andar de balão? O dia caminha pelo parque com contundência e entrega. Também quero escorrer assim. Me acompanha?

7 anos

O homem entrou na sala e viu uma bacia-de-pés-de-terra. Do outro lado re-parou no buraco enquanto beijava a boca da mulher. O homem percebeu o desejo crescendo. A mulher fechou os olhos e o homem virou de lado. Enquanto espera a abertura dos olhos o homem olha para a escada e se pergunta: ela está subindo ou descendo?

8 anos

Um dia amanheço ostra, no outro desperto leão. Tenciono a língua no mundo, afrouxo os lábios ao navegar. Viajante-mulher, peguemos o remo, o mar está bravio, mas nossas pernas sabem boiar.

9 anos

Dia que começa dentro é dia inteiro por fora.

10 anos

Saudade feita de alma e osso.

11 anos

Daqui, do vento que sopra, a direção do hoje. Sinto gosto de assoalho encerado nas partilhas. O sopro responde na direção do abraço.

12 anos

O peito às vezes tem que se dilatar para caber a saudade.

13 anos

O coração do contador de histórias sai pela boca.

14 anos

O cheiro de ontem ocupa cada canto da casa. A casa ocupa cada canto de mim. Canto.

15 anos

Estava apertado. Escrevi. Agora tudo tem cabimento.
Hoje o homem caído entendeu sua queda:
- Manobra usada em reuniões, discussões ou plenários, que consiste em recorrer a artimanhas, a fim de prejudicar a discussão de um ponto, para evitar sua aprovação, forçar um adiamento.

É isto que vivemos quando não falamos sobre aquilo que nos salvaria do silêncio sofrido.
Do alto uma voz:
- Diversionismo.
Ninguém quer falar sobre as coisas nas mesas dos bares, nos bancos dos trens, nas carteiras das escolas, nas salas dos professores, no canal cultural da tv, nas filas dos bancos, nas mesas das casas de pais e filhos.
Hoje aprendemos a tática.
O deus dos dias que vivemos: tática diversionista.


Um pássaro azul e amarelo dita as regras políticas da Ágora que insiste em adiar o dito de agora.

Felizmente há os loucos que insistem em voltar ao assunto.
Assunta é uma mulher com ideias de papelão que gosta mesmo de nos lembrar:
- Não fuja do dito, maldito.
Depois continua sua peregrinação em busca das palavras que possam cicatrizar tamanho abandono.
Abonaram os dias de razão e deixaram Assunta à sorte, hoje todos os "táticos" estão se divertindo, é dia do Senhor Morto e as águas do mar estão impróprias para banho, não sei se dormem bem ou se rangem os dentes: isso é segredo das cabeças de cada um deles.
Só sei que não falaram quando tinham que dizer e Assunta continua dizendo e sendo acusada por eles - quando voltam para seus ofícios às segundas - de que ela não sabe o que diz.
E ela grita. Quem sabe termine o luto de dois mil anos e retornemos à vida.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Numa conversa de ônibus, a mulher ouviu:
- O mundo já acabou, agora o que restam são as justificativas.

Na frente da escola dois outros diziam:
- Hoje pela manhã limpei meus preconceitos.
- Como foi?
- Fui a uma tourada e vi sete mortes: a primeira eu chorei, a segunda eu olhei, a terceira eu me olhei, a quarta eu parei, a quinta eu rezei, a sexta eu perdoei, a sétima eu senti.

Do outro lado da rua, a velha palavreava com outra:
- É um artista renomado.
- Renomado quer dizer que dizem muito seu nome?
- Não, renomado é que ele teve um nome um dia e hoje tem outro: tipo Fernanda Montenegro ser Arlete.
- Deve ser estranho ser alguém renomeado, não é?
- É acho que neste caso é renomeado e não renomado.
- É.
- Então, pode ser que renomado venha de nômade. Aquele que não tem onde viver depois que fica famoso.
- Pode.
- Quanta coisa uma palavra pode, não é?
- E a Lourdes, vai bem?

No centro do terreiro o velho falava em voz baixa:
- Incorporar é diferente de atrair. Incorporar é absorver com o corpo e atrair é não-trair. Às vezes incorporamos pessoas e às vezes atraímos pessoas. Às vezes incorporamos ideias, às vezes atraímos ideias.
Todos ficaram atraídos por aquele jeito de falar do velho.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Episódio 1

lá, longe da casa de número 1, os homens cantavam suas verdades
um dia, a mulher de cabelos longos foi chamada até a sala mais alta
lá, desfizeram suas tranças e esticaram seus cabelos
a mulher nunca mais soube o que era a verdade de seus cabelos.

Episódio 2

todos chupavam laranjas cerrando a casca com um estilete velho
as laranjas desapareceram dos pés de origem
carregavam caminhões pipa e davam linha para o céu
as máquinas de fazer sulco custam trezentos dinheiros em qualquer parte.

Episódio 3

naquele tempo todos por ali tinham o que dizer depois de cavar um poço
depois de uma tarde ensolarada e de um decreto governamental
os homens e mulheres taparam todos os buracos abertos pelos verbos
agora as palavras não tinham por onde sair, elas continuam a entrar

P.S. tem dia que dá a impressão que não cabe mais nada dentro da gente. disse o escritor cutucando o verbo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Os Sete Desaforismos X

I

A escrita sofre quando não escreve.

II

O pior roubo da alma é a indiferença.

III

Saber cantar um texto até a última nota
pode ser dar atenção ao rodapé da casa.

IV

O aprendizado mais importante da vida é:
escrever o eu minúsculo sem sentir que está traindo a gramática.

V

Hoje é tempo de praticar o último dia
de todos os dias que se vai viver.

VI

Não esquecer de levar o coração
no dia do funeral da cabeça.

VII

Milagre é riscar um livro todos os dias
como quem escova os dentes para
não perder a mordida um dia.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

li isto em algum lugar: não há pensamento enquanto não escrevemos

Dicionário deste escrito

escrever é cortar a realidade
realidade é aquilo que estamos acostumados a ver
ver é saber que fazemos imagens sobre tudo o que escutamos e lemos, e quando conhecemos uma nos apegamos como única.

Dissertação

talvez seja preciso cortar a realidade
abrir uns buracos nas imagens
elas estão viciadas-de-dizer-sempre-o-mesmo
atingir o lugar-do-medo-real
lá usar o estilete que dá a cada um o seu estilo

ter estilo é isso: cortar a gola da camisa porque temos alergia no pescoço

ou ainda

chupar a mexerica no quintal
fazendo-se presente
o antes do compromisso.