sexta-feira, 9 de março de 2012

Fraseologia Barroca I

Escuto a frase abaixo e esta esconde-se atrás da cera que insiste em tornar peça de museu todas as coisas que por lá passam:

Primeiro conhecer sua aldeia para poder vencer o mundo.

Estudo 1 - O que as palavras dizem


Primeiro aqui diz respeito à ordem das coisas.

Conhecer aqui diz respeito a ver pela primeira vez e deixar-se atropelar-se pelo novo.

Sua aqui diz respeito às marcas na alma.

Aldeia aqui diz respeito a voltar à região primeva de quando as gentes viviam entre poucos para conhecerem muito.

Para aqui diz respeito à destinação dos atos humanos.

Poder aqui diz respeito à potência para se fazer algo.

Vencer aqui diz respeito a vir a ser.

O aqui diz respeito ao artigo.

Mundo aqui diz respeito a tudo e a nada.


Estudo 2 - De onde as palavras dizem

Aqui é igual ao lugar de onde se fala

Diz é igual ao que vibra antes daquilo que significa

Respeito é igual (como dito em outra ocasião) ao res do peito, dito de outro modo, às coisas que moram no peito ou no coração.

Estudo 3 - Como as palavras dizem

É é é.

Igual é igual.

Estudo 4 - O é das palavras

Fundamento discutido desde o surgimento do primeiro homo sapiens.

Estudo 5

Se houvesse seria metafísica.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Os Sete Desaforismos IV

I

Quando tudo é demasiadamente anônimo
ninguém se fala no elevador.

II

As andorinhas dão voos rasantes
para beber da fonte.

III

Sempre que possível é melhor ler
os fundadores.

IV

O segredo para alguém ser entediante
é dizer tudo.

V

O comerciante só caminha quando fecha a loja.

VI

Quando alguém fica muito livre,
não tem tempo pra nada.

VII

O míope olha no limite da armação.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Navegar Meninos III

Andando por uma rua de girassóis-olhos-para-o-céu o menino queria chegar lá. Todos que por ele passavam faziam a mesma pergunta: para onde você vai. O menino respondia: sei lá. Quanto mais andava por ali mais sentia que aquele caminho continuava a exigir dele um caminhar para lá. Ninguém daquele lugar-de-fazer-coisas-de-fazer-coisas-e-nada-nunca pensava em lá, só queriam saber do aqui e de si. E o menino não tinha si e só pensava sei lá. Quando perguntavam para o menino para quê fazer o que ele fazia ele respondia: sei lá. O menino pensava que quem ficava parado dizendo o saber tudo daqui adoentava de nó nas pernas e podia cair de tropeço em desgosto. O menino reparou-se duvidoso daqui ao ver uma minhoca indo para lá e não parada aqui ziguezagueando inutilidades para a terra. Os outros-todos receosos de dizer o sei lá que sentiam, vendo o menino em seu sei lá profundo enxergaram o silêncio de aquietar-se entre girassóis e olharam para o céu. Viram um passarinho dando gosto para o acaso e sei lá. O não sei daqui de todos de repente quis saber lá. O menino deitou saudade por aquilo que só saberia quando lá chegar.

terça-feira, 6 de março de 2012

Palavras Pisoteadas I

Transtorno

Trans - trânsito
Torno - aquilo que faz girar, voltar

Definição: Alguém em transtorno é alguém que está se voltando para outro ponto que não aquele que sempre esteve.

Moral da história: Tornar-se outro é igual a transtornar-se

segunda-feira, 5 de março de 2012

Navegar Meninos II

Primeiro dia de aula. O menino sentava-se na menor pedra-musgo. O mestre em pé sobre a grama professava palavras-adjetivo que se amontoavam pesadas ao seu redor. Todos os outros meninos também, sentados em suas pedras-silêncio, enquanto ouviam o mestre, esperavam o pedido-mesmo de todos os anos. Meninos do Brejo-de-Cá, quero que todos escrevam uma redação sobre suas férias de Lá. Todos tratavam de pegar suas pontas de carvão e escrever nas pedras. Mas o menino, não. Empacou. Não quis escrever sobre o que não vivera e pensou para si, dentro de si: Nada. O menino olhou para o lado e para o mestre que recusava a sinceridade do não-ter-o-que-dizer. O menino então viu um caramujo que trazia uma casa-vida sobre si, leve sobre a grama. E passou a escrever. Escreveu tanto, que a sua pedra, de pequena, parecia maior. No dia seguinte, o mestre pediu para cada qual ler a sua redação. Os meninos-todos liam palavras-idem, dias de sol, noites acordadas em folia, gente que falava alto, castelos de areia. Hora do menino da pedra pequena-cheia. Terminou assim: ... Sim. Não gosto de esconder-me por detrás das palavras-de-qualidade. Prefiro continuar a ser grama e a sentir o substantivo do caramujo.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Derivar Meninos V

Vivia vermelha. Tudo estava sempre de cabeça-para-baixo. O único remédio era abrir um buraco no fundo do quintal e enterrar a cabeça. Quando alguém-cabeça-para-baixo olhava para ela: nossa. Ficava beterraba. Quando ela não sabia responder uma pergunta: nossa. As bochechas ferviam São João. Ela então corria para o fundo do quintal da casa, abria um buraco e colocava a cabeça ali dentro até tudo voltar de dentro. Um dia, caminhando por uma rua de árvores de bicicletas azuis ela viu um buraco aberto bem no meio do passeio. Aproximou-se com vagar daquele buraco e puft. Colocou a cabeça ali dentro. Quando abriu os olhos: nossa. Viu cabeças enfiadas em buracos-outros e o mais engraçado é que era tudo gente-de-cabeça-para-cima: nossa. Eram meninas, meninos, gente grande e pequena, alta e baixa, magra e gorda e todo mundo cabeça-para-cima. Espantou-se um tanto que pensou felicidade dentro de si.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Os Sete Desaforismos III

I

Crescer lá fora, no meio da floresta,
para viver outro tipo de realidade.


II

Preparar-se em segredo para a morte.


III

O que é preciso: que dor e alegria
estejam no centro.


IV

Retornar da solidão e da tristeza da infância.


V

Ser de outro lugar e haver outro lugar no Ser.


VI

A espécie humana não suporta muita realidade.


VII

Abrir como uma flor quando se sente simpatia e afeição.

Ser atraente quando se abre.