quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Derivar Meninos I
O menino acordou esquisito. Estava meio molhado o menino. Ele não tinha feito xixi na cama. Os olhos do menino estavam chorando. O menino foi até o espelho e olhou. Viu uma pinta. A pinta não era uma pinta como as que o menino conhecia. O menino descobriu que a pinta era uma estrela-do-meio-dia que estava deitada na sua cara esperando a noite. Deitada um tanto que já estava dormindo. O menino tirou o chapéu marcha-soldado que usava, cortou as duas pontas e o fez barquinho-de-papel. Entre as águas salgadas e revoltas de olhos que choram o menino pôs-se a navegar. Navegou tanto que chegou até onde nascem as estrelas antes de tornarem-se pintas.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Os Sete Desaforismos II
I
propaganda já foi reclame,
hoje reclama-se da propaganda.
[os olhos não deixam de olhar. o que se clama?]
II
sacrifício é manter-se no frescor.
III
- Há vida fora do trilho. - disse o trem.
IV
quando o Buda sentou sob a árvore, lembrou que tinha bunda.
V
a vida que temos que viver pode já estar sendo vivida.
VI
Hábito é bifurcação: habitar ou habituar.
VII
quando Moisés avistou a Terra Prometida estava fazendo a reforma agrária.
propaganda já foi reclame,
hoje reclama-se da propaganda.
[os olhos não deixam de olhar. o que se clama?]
II
sacrifício é manter-se no frescor.
III
- Há vida fora do trilho. - disse o trem.
IV
quando o Buda sentou sob a árvore, lembrou que tinha bunda.
V
a vida que temos que viver pode já estar sendo vivida.
VI
Hábito é bifurcação: habitar ou habituar.
VII
quando Moisés avistou a Terra Prometida estava fazendo a reforma agrária.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
O-caso
Um homem seca o piso, enquanto um outro remove a terra desvalida de minérios. A flor demonstra a ausência e os homens distraem-se sonolentos em vigília. Vão de um lado para o outro sem pensar. Na noite anterior Penélope foi à Troia, Ulisses não voltou para casa, Eugênia despediu-se de Adoniran, simplesmente porque as crianças não tinham onde dormir.
Do Pinheiro mais alto avistava-se o massacre, em que homens e mulheres e velhos e crianças e cachorros e passarinhos e gente misturada era atingida por sal, tipo lesmas de quintais úmidos.
A diferença, distintos senhores e distintíssimas senhoras, é que a terra está sendo limpa para acomodar dinheiro sujo. Para este tipo de ato não há lavanderia possível.
Os homens continuam a lavar e a secar as ruas depois do temporal. Suas roupas trazem respingos de sangue de gente, da sua gente. Aquilo, ou, isto de homens massacrarem homens é sinal de nosso tempo.
Pergunta-se por aquelas ruas:
- Para onde vão as raízes quando não existem terras para replantá-las?
Luzia nunca mais encontrou Lourdes. O menino jamais reviu o vira-latas Peludo. A menina abandonou à força a boneca aos tratores. O homem perdeu as pedras do dominó e nunca mais reviu o Batata. A velha adoeceu de saudade e seus bordados, agora sujos pela lama do lucro, tapam os buracos do medo.
Os homens de poder estão deitados em 400 fios de lençóis (lendo efemérides) ou discutindo às mesas de madeira-de-lei a Divina Comédia do Dante ou nas Igrejas verbando algum João ou Matheus ou Lucas: comem embutidos europeus.
Pregaram os pés da resistência e lá no alto avista-se o pequeno Pinheirinho. Mas quantos massacres ainda serão necessários para que paremos de repetir a mesma crueldade de séculos? A dor está gritando sem parar, ouço os gritos marcharem até aqui e meus ouvidos doem.
Os dois homens fardados, que cuidam do jardim, entreolham-se quando ouvem a voz do escrivão:
- Será um louco?
O escrivão deita a caneta e pensa se não está a enlouquecer, falando sozinho.
- Sozinho? O que ele está dizendo? - comentam.
Do Pinheiro mais alto avistava-se o massacre, em que homens e mulheres e velhos e crianças e cachorros e passarinhos e gente misturada era atingida por sal, tipo lesmas de quintais úmidos.
A diferença, distintos senhores e distintíssimas senhoras, é que a terra está sendo limpa para acomodar dinheiro sujo. Para este tipo de ato não há lavanderia possível.
Os homens continuam a lavar e a secar as ruas depois do temporal. Suas roupas trazem respingos de sangue de gente, da sua gente. Aquilo, ou, isto de homens massacrarem homens é sinal de nosso tempo.
Pergunta-se por aquelas ruas:
- Para onde vão as raízes quando não existem terras para replantá-las?
Luzia nunca mais encontrou Lourdes. O menino jamais reviu o vira-latas Peludo. A menina abandonou à força a boneca aos tratores. O homem perdeu as pedras do dominó e nunca mais reviu o Batata. A velha adoeceu de saudade e seus bordados, agora sujos pela lama do lucro, tapam os buracos do medo.
Os homens de poder estão deitados em 400 fios de lençóis (lendo efemérides) ou discutindo às mesas de madeira-de-lei a Divina Comédia do Dante ou nas Igrejas verbando algum João ou Matheus ou Lucas: comem embutidos europeus.
Pregaram os pés da resistência e lá no alto avista-se o pequeno Pinheirinho. Mas quantos massacres ainda serão necessários para que paremos de repetir a mesma crueldade de séculos? A dor está gritando sem parar, ouço os gritos marcharem até aqui e meus ouvidos doem.
Os dois homens fardados, que cuidam do jardim, entreolham-se quando ouvem a voz do escrivão:
- Será um louco?
O escrivão deita a caneta e pensa se não está a enlouquecer, falando sozinho.
- Sozinho? O que ele está dizendo? - comentam.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
ATO I
O que se espera de um compromisso assumido? O que se espera, o que se tem esperança: missa, missão, prece. Se apressado pressou a escolha de alguma coisa descolada, o reverso virá em breve cobrar-lhe que devolva. Agora se em prece comunga comigo ou consigo ou convosco ou conosco aquilo que de fato deve ser feito, agora o que se deve ao ato é cumpri-lo. Deixa a carne atropelar-se por certo esforço de manter-se atento sem vacilo do primeiro instante até o último. Deixa o prazer em química escorrer sobre o gesto de se ser consistente do princípio ao fim naquilo que missou cumprir. Se sabe que em tudo há dor e prazer não precisa ficar o tempo todo acovardando-se a separar gesto de gemido. Tudo é junto quando se está presente em prece na única coisa que se pode fazer: dizer sim ao sim que se jurou ao agora.
P.S. Houve tempo em que justo era dizer não.
P.S. Houve tempo em que justo era dizer não.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Os Sete Desaforismos
I
a pessoa a sua frente é a própria humanidade.
II
coisas que a língua faz: "alguém vai voltando"
Só é possível ir para frente voltando-se sempre.
III
Duas mulheres conversam sobre o gosto:
- Eu gosto de gelado.
- Não gosto de nada gelado.
- Eu gosto de azedo.
- Não gosto de nada azedo.
- Eu gosto de ardido.
- Não gosto de nada ardido.
O homem escuta e pensa:
- Gosto não se discute, mas do que será que eu gosto?
Será isto uma discussão? - pensa um coelho enquanto consulta o relógio para entrar na história de Alice.
IV
a explicação é obra da preguiça.
V
é bonito ver uma pessoa animada, talvez porque nos lembre da alma.
VI
sair do assunto é o mais interessante.
VII
milagre: nascer para nós mesmos.
a pessoa a sua frente é a própria humanidade.
II
coisas que a língua faz: "alguém vai voltando"
Só é possível ir para frente voltando-se sempre.
III
Duas mulheres conversam sobre o gosto:
- Eu gosto de gelado.
- Não gosto de nada gelado.
- Eu gosto de azedo.
- Não gosto de nada azedo.
- Eu gosto de ardido.
- Não gosto de nada ardido.
O homem escuta e pensa:
- Gosto não se discute, mas do que será que eu gosto?
Será isto uma discussão? - pensa um coelho enquanto consulta o relógio para entrar na história de Alice.
IV
a explicação é obra da preguiça.
V
é bonito ver uma pessoa animada, talvez porque nos lembre da alma.
VI
sair do assunto é o mais interessante.
VII
milagre: nascer para nós mesmos.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
O homem gritou atrás de mim, como se estivesse na frente:
- Massificação.
O ar era de 1850, eu olhava apenas os retalhos de lona caídos no largo,
Ele olhava a junção de cada pedaço para cobrir o suor com dominação:
Como quem vê amoras sangrando o chão ou mulheres férteis dizendo pronto!
Levi Strauss viu nos retalhos força
O homem viu em Levi Strauss o Capital.
Pan era o deus dos rebanhos e pastores,
ele costumava assustar os homens com suas bruscas aparições.
Fletir poderia significar fazer flexões.
Entre mim e o homem havia um ouvido panfletário:
- Os assombros podem fazer flexões.
P.S.1. No auge da corrida pelo ouro, com minas lotadas, Levi Strauss observou a oferta de lona e a fragilidade das roupas dos mineradores. Confeccionou calças resistentes, com bolsos reforçados com rebites de cobre.
P.S.2. Na última manifestação 30 homens e mulheres inscreveram-se para falar a mesma coisa, achando que estavam dizendo coisas diferentes.
P.S.3. Eu estava na última manifestação e continuo a marchar vestindo calça jeans.
- Massificação.
O ar era de 1850, eu olhava apenas os retalhos de lona caídos no largo,
Ele olhava a junção de cada pedaço para cobrir o suor com dominação:
Como quem vê amoras sangrando o chão ou mulheres férteis dizendo pronto!
Levi Strauss viu nos retalhos força
O homem viu em Levi Strauss o Capital.
Pan era o deus dos rebanhos e pastores,
ele costumava assustar os homens com suas bruscas aparições.
Fletir poderia significar fazer flexões.
Entre mim e o homem havia um ouvido panfletário:
- Os assombros podem fazer flexões.
P.S.1. No auge da corrida pelo ouro, com minas lotadas, Levi Strauss observou a oferta de lona e a fragilidade das roupas dos mineradores. Confeccionou calças resistentes, com bolsos reforçados com rebites de cobre.
P.S.2. Na última manifestação 30 homens e mulheres inscreveram-se para falar a mesma coisa, achando que estavam dizendo coisas diferentes.
P.S.3. Eu estava na última manifestação e continuo a marchar vestindo calça jeans.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Aquele dia juntava sol e chuva,
outrora diziam:
- Casamento de viúva.
A mulher de guarda-chuva fechado
não conseguia esquecer o nome do objeto.
O sol queimava a dúvida.
- É a curva que anda?
- É a vida que é curva?
Súbito: uma dúvida.
Duas-vidas.
- Seria a dúvida o ponto nervoso
das sempre duas vidas trazidas
na mochila?
outrora diziam:
- Casamento de viúva.
A mulher de guarda-chuva fechado
não conseguia esquecer o nome do objeto.
O sol queimava a dúvida.
- É a curva que anda?
- É a vida que é curva?
Súbito: uma dúvida.
Duas-vidas.
- Seria a dúvida o ponto nervoso
das sempre duas vidas trazidas
na mochila?
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